Atropelamento mortal
Nalgum oásis do princípio ele fora
Um fugitivo brilho no olhar de Deus
- a vida havia de lho lembrar muitas vezes
Atravessou as nossas ruas entre gatos,
a chuva molhou-lhe as pobres botas cardadas.
Teve um banco de jardim, teve amigos, um deles o sol.
Sempre sem o saber procurou Deus.
Um dia, foi pelos campos fora atrás dele,
perdeu o emprego na Câmara Municipal. Teve mãe mas depois
nunca mais foi solução para ninguém.
Naquele dia a morte instalou-o
confortavelmente no céu. Lá se foi
com seus modos humanos, seus caprichos
e um notório acanhamento em público
(há-de a princípio faltar-lhe à vontade entre os anjos).
Tinha o nome no registo, agora habita
nas planícies ilimitadas de Deus.
Nas suas costas ainda se derrama
a tarde interrompida.
Manhãs e manhãs desfilarão sobre ele,
Caracóis cobrirão a memória daquele
que foi da sua infância como qualquer de nós.
Teve um nome de aqui, andou de boca em boca,
agora é Deus que o tem na voz.
Sugestão alternativa do
OrCa para acompanhar a fotografia:
A vida é um traço que faço num passo gizado dos dias
A vida é o que eu faço no passo-compasso no laço dos dias
E quando parece que nada acontece por melancolias
Mesmo que eu não saiba descobrir-lhe o nexo
Há um reflexo simétrico e simples
Que segue a meu lado
E sou eu que o faço
No espelho de água desse doce enlace
De que é feita a vida.
Foto escolhida e da autoria do
Ognid
Poema de Ruy Belo"Roubado" ao
Morfeu